Seja bem vindo (a)!

Sejam bem-vindos (as)! Vamos criar interrogações, incentivar a leitura, instigar o pensar, espalhar sementes...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fluxo de Hipocrisia


“É chato chegar a um objetivo num instante / eu quero viver essa metamorfose ambulante” (Raul Seixas, cantor e compositor brasileiro)

                                       Olá!

Nessa postagem, palavras "jovens" de uma jovem que se descobriu poetisa! A nossa querida Izamara, ou simplesmente Iza, que “escondeu” seu talento poético, pelo menos para mim, mais de um ano. Vi esse “aflorar” no seu blog revolucaodeideias.blogspot.com e fiquei felicíssima. Ela sempre se destacou nas redações dissertativas (inclusive com redação postada aqui nesse blog), mas quase sempre se esquivava nos momentos de "poetar". Não adiantou. Hoje podemos ver que essa “futura farmacêutica” se deixou tocar pela beleza da poesia. Nos dois textos abaixo (com eu-lírico masculino) fica evidente que, além do talento poético, Izamara é uma jovem pensante. Percebe as coisas ao seu redor; o ser humano; a sociedade em que vive. E à sua maneira, mostra sua inquietação e indignação de jovem que quer um mundo justo, mais humano e fraterno, onde as pessoas possam descobrir e viver a sua essência e não as aparências.
PS : A Iza é essa da foto. Ela sempre se apresenta aqui no Mire e Veja Travessia e no seu blog  com a foto da Janis Joplin.
Vamos aos poemas!

FLUXO DE HIPOCRISIA

Vejo com o canto dos olhos
Como quem tem medo de expor à verdade

Passo reto, ando, caminho;
Como quem foge de uma realidade
Crua, suja e perversa.

Todos ao redor parecem não importar
Com os homens que adormecem no frio
Com as mulheres providas de força, que se doam a noite
E as crianças despidas de futuro.

E assim me pergunto se estou louco
Ou se o silêncio da sociedade é uma loucura.

 * * * * *


SOCIEDADE ALIENADA

Acordar, trabalhar, jantar, dormir
Sonâmbulo eu vivo a correr
Padrões, regras, deveres a cumprir
Servindo, esqueci de viver.

Para sobreviver restou-me seguir
Aceitar as leis e obedecer
Alienadamente seguindo
Alienadamente cumprindo.

Oh situação alienada!
Será isso que resta para mim?
Oh sociedade culpada!
Por que tu ainda caminhas assim?

Sempre quieta; sempre calada
Nunca questionas e sempre dizes sim?
Onde ficou a tua vontade?
Levanta-te, grita a verdade!

* * * * *

Izamara Ribeiro Santana

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Vagabundos, não senhor!

“O que me surpreende na aplicação de uma educação libertadora é o medo da liberdade” (Paulo Freire)


Olá!
          Hoje falo do lançamento de um livro que tem muito a ver comigo, e com este blog  Mire e Veja Travessia, que tem compromisso com uma educação libertadora, nem sempre muito fácil, na prática, quando se trilha o caminho da educação convencional na qual estou inserida . Trata-se de “Vagabundos, não senhor – Cidadãos brasileiros e planetários!”,  de autoria do meu  amigo, Thierry De Burghgrave.
        Com muita honra e alegria recebi o livro em casa, com uma bonita dedicatória, e ao lê-lo fiz uma “viagem” histórica, prazerosa e enriquecedora, e em vários momentos dispus de muita emoção “vendo”, por onde, de certa forma, já passei. 
       Pode-se constatar que o livro é “um misto de ensaio científico e autobiografia”. Aborda “os caminhos de uma educação libertadora, através da maravilhosa  aventura que foi a implantação e efetivação da Escola Comunidade Rural na região de Brotas de Macaúbas, na Bahia, embora abordando também o trabalho da Pedagogia da Alternância no Brasil e o mundo.”
        Não quero tecer comentários sobre o livro para preservar  a curiosidade e o julgamentos de quem vai ler, uma vez que o mesmo foi lançado há menos de um mês. Registro, porém, que me surpreendi positivamente. Não podia esperar menos quando  se trata de uma pessoa com autoridade para discorrer  sobre esse e outros temas, o que, certamente, foi um ponto decisivo para a qualidade da obra como um todo.
Thierry (foto), Mestre em Ciências da Educação, educador, tradutor de artigos, livros, atualmente é assessor da UNEFAB (União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil). Um voluntário da cooperação belga que chegou ao Brasil, jovem, cheio de ideias, e abraçou a luta pela educação onde trabalhou , inclusive, divulgando a Pedagogia da Alternância em várias regiões brasileiras , onde se tornou uma pessoa muito querida e admirada. “Sou um brasileiro com sotaque belga”, assim ele se autodenomina.
        Seu livro vem como um presente para todos nós, seus amigos, e todos aqueles que desejam ter um melhor conhecimento sobre o autor, e temas relacionados a Educação Libertadora, Pedagogia da Alternância, Educação no Campo, Conflitos de Terra, “ Fundo de Pasto”, Fundação da ECR em Brotas de Macaúbas, dentre outros. Trata-se, portando, de um livro direcionado a um público, de certo modo, mais específico, que eu espero, tenha acesso e leia o livro.
        Concluo parafraseando (quase copiando) Dom Luiz Cappio, no prefácio do livro: Obrigada, por esta viagem no tempo. Obrigada, por este alimento de testemunho de lutas, conquistas, por  acreditar que “um novo mundo é possível” desde que se dê a vida, com inteligência, criatividade, mas com muito amor e compromisso com os menos favorecidos, que são os prediletos de Jesus e que, por consequência, devem ser o nosso também. Obrigada por nos confirmar que sem grandes ideais e sem esperança não se alcança uma sociedade justa e fraterna.
     

 Parabéns! E que venha o próximo livro.

* foto 2: capa do livro.

domingo, 19 de junho de 2011

Rubem Alves: Papos e Ideias

“A nada e a ninguém serás fiel, se não fores fiel a ti mesmo” (Dom Hélder Câmara)

          Olá, queridos e queridas!

        Quem me acompanha aqui no Mire e Veja Travessia já sabe que sou admiradora de Rubem Alves, renomado educador, escritor, psicanalista e grande ser humano. Tenho algumas postagens nesse blog que se referem a textos dele, e outras postagens certamente virão, pois aqui é um espaço para “criar interrogações, incentivar a leitura, instigar o pensar, tomar posição, espalhar sementes...” E os textos de Rubem Alves fazem isso.
         Nessa semana tive a oportunidade e a honra de “prosear" um pouquinho com Rubem Alves num evento promovido pela Livraria Saraiva - Papos e Ideias - para publicação do livro “O ALUNO, O PROFESSOR, A ESCOLA – uma conversa sobre educação” , da Editora Papiros, em parceria com outro grande educador e escritor: Celso Antunes, de quem também tenho e já li vários livros, dentre eles, os da coleção “Fascículo na sala de aula – Ed. Vozes”.  Algumas coisas ficaram por debater e muitas perguntas por fazer, até porque não se pode “roubar” o tempo das outras pessoas presentes que também querem e precisam se manifestar. Fiquei  feliz, principalmente, por  expressar minha ENORME GRATIDÃO ao Mestre Rubem Alves que sempre me influenciou com suas excelentes reflexões sobre educação, religião, política, e vários aspectos da vida do ser humano por meio das suas entrevistas, artigos em jornais e, principalmente, em seus livros. Falo que os seus livros são escritos em prosa e cheio de poesia. Sua vida, seus escritos são encanto para nossa alma e alimento para a nossa utopia, para a nossa vida.


        Um dia marcante para mim!Compartilho com vocês esse momento e deixo um pequeno texto de Rubem Alves para saborearmos e refletirmos.
  Crédito da foto 1: Professor Arilton
  Crédito das fots 2 e 3: Paulo Guimarães - Saraiva                          

*********

Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado. (Rubem Alves)


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quando a gente ama

"A coisa mais fina do mundo é o sentimento" (Adélia Prado)


          Ano passado ao trabalhar na escola um projeto interdisciplinar, na semana dos namorados, li um texto - O Amor - de Carlos Drummond de Andrade. Os alunos/as adoraram (até o publiquei aqui no Mire e Veja Travessia). Esse tema e a data de ontem são bem típicos dessa fase   e eu que há muitos anos trabalho com essa querida gente, jovens e adolescentes, ouço-os falar das suas vivências e angústias com os namorados/ namoradas, ou simplesmente, “ficantes”. E  “fico”, na maioria das vezes, estarrecida. Pergunto-me sempre se não falta certa dose de ternura...
          Bom! Essa música me chama atenção pela sua singeleza e beleza poética (até convenci meus alunos a cantarem no sarau de 2009, o que foi feito na belíssima voz da Michele do 3º “A” daquele ano).
          Deixo também uma música de Vinícius de Moraes. Leiam (são verdadeiros poemas) e, querendo, ouçam (tem na net). Abraços a todos e todas do Mire e Veja Travessia.

 Quando A Gente Ama - Oswaldo Montenegro
Composição : Marcelo Barbosa Barreti / Nil Bernardes / Fábio Caetano

Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça
Insano acreditar...

Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar

Meu amor,a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar

Quando a gente ama,
Simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!

**********

 Pela luz dos olhos teus - Vinícius de Moraes
 Composição: Vinícius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Palavra de Mestra

“Todo o nosso conhecimento se inicia com sentimentos” (Leonardo da Vince, pensador italiano)



Olá!
Li uma entrevista de Adélia Prado (foto)  e fiquei encantada.
Li o seu mais recente livro A duração do dia – e fiquei mais encantada ainda. É preciso respirar fundo entre uma poesia e outra, tanto é a carga de sentimentos e belezas.
Transcrevo aqui uma poesia e a entrevista, imperdível não só para professores, mas para estudantes, poetas e futuros poetas, e todos que gostam de educação, de poesia, de coisas boas, enfim.       
Oxalá, todos nós, educadores e educadoras, “ouvíssemos”, com muita atenção, as palavras dessa grande mestra.

1. Poesia*

ÍCARO

Caminho sobre o planeta
como os equilibristas em suas bolas gigantes,
não se sai do lugar,
de si mesmo não se pode sair.
Aviões, dirigíveis, saltos de alta montanha
confrangem o coração.
O voo aborta sempre.
Ainda que em chão de lua,
Todo destino é o chão.

*****

2. Entrevista*                     
"Você sente que algo "pede" expressão.
É o momento do trabalho concreto de escrever"

Poeta nasce poeta ou se constrói como poeta?
O poeta, como qualquer outro artista, nasce como nascem os cantores, já de posse do seu dom. O que se constrói nele é a vida, que segue o processo natural em toda pessoa, artista ou não, visando seu amadurecimento. Tal processo se reflete inevitavelmente na obra. Rigorosamente falando, uma oficina literária não “cria” um escritor, mas pode descobri-lo, como uma escola de música descobre um virtuoso. A poesia não é uma descrição de alguma coisa, não é um comentário a respeito de nada. É uma expressão. Toda arte verdadeira só tem um objeto: a poesia. A obra de um artista, quando verdadeira, seja de que arte for, tem o poder de revelar a poesia contida no ser das coisas. Eu não dou conta de pegar o ser de uma rosa, de um rio, de uma passagem, de um rosto. Só quem consegue revelar esse ser das coisas é a arte, que nos mostra a beleza suprema delas.Nesse sentido, a arte me abre para a realidade. A maravilha dela é isso. É uma epifania. Isso em qualquer tipo de arte, como o teatro, a música, o cinema, a dança, a escultura. A poesia é essa radiação que as coisas têm e que é percebida por meio da arte. Essa radiação é como se fosse o brilho da realidade.

Como nasceu sua vontade de escrever? É uma necessidade? Conseguiria viver sem escrever?
Ainda menina, descobri o poder e o prazer da palavra. Escrevo desde os catorze anos, quando fiz meu primeiro soneto. Tudo o que escrevi até Bagagem não tem nenhum valor literário. São coisas que têm importância, para mim, afetiva, de um bom tempo da minha vida. Agora, literatura, a entrega a um processo de escrita torrencial, eu comecei aos quarenta anos. Eu é quem preciso do exercício de escrever. Vejo como um dever, uma fidelidade a Deus que me concede o dom. Qualquer pessoa, e infelizmente isso acontece muito, consegue viver fora de sua vocação, mas, com altíssimo custo para sua saúde e prejuízo para a comunidade humana, porque o exercício do dom é exigência desse mesmo dom.

Como funciona seu processo de escrita? Que tipo de sensação ou vontade vem primeiro no momento da construção de seus poemas?
Você sente que algo “pede” expressão. Então, é o momento do trabalho concreto de escrever, procurar como dizer aquilo que está pedindo expressão. Num primeiro momento, acredito na inspiração. É o estado e fruição poética que determinada coisa lhe provoca, com o desejo imediato de expressar aquilo. É uma necessidade fatal. O segundo,a escrita propriamente, considero momento de enorme prazer e alegria.É uma coisa fantástica escrever, descobrir sua própria voz. Quem escreve sabe disso.

Como foi o aparecimento do seu primeiro livro, Bagagem?
O livro apareceu em 1976. Eu comecei a escrevê-lo por volta de 1973. Meu primeiro livro foi feito num entusiasmo, na felicidade da descoberta.  Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. E os poemas praticamente irromperam, apareceram cargas e sobrecargas de poemas.Eu escrevia muito nesse período, e quando eu vi que o volume tinha uma unidade, que ele não era apenas uma coleção de poemas, pois tinha uma fala peculiar, dele próprio, entre outros títulos que me ocorreram, Bagagem era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa. A própria poesia.


Temas relacionados à mulher, à religiosidade, ao amor e ao desejo são predominantes em sua obra. Existem temas que são mais poéticos ou mais líricos que outros? Ou a poesia pode servir “a todas as fomes”?
A poesia não é assunto, não é enredo, não é tema. Poesia é forma, que se utiliza de tudo. Não há temas mais poéticos. O real é o grande tema. E nós temos o real no cotidiano, configurado no amor, na morte, nas virtudes e nas mais diversas paixões que nos habitam. Qualquer coisa é a casa da poesia. Ela alimenta, dá significação, sentido à vida. A poesia pousa onde lhe apraz. Tem o dom de espalhar humanidade.

Existe uma poesia “feminina” e outra “masculina”?
Poesia feminina é uma tristeza tão grande quanto poesia masculina. Como não tem assunto, a poesia também não tem gênero. É hermafrodita. A poesia é fraterna, solidária, chama tudo a um centro humano divino. É sempre comunhão.

O que dá mais trabalho, ficção ou poesia?
Os dois dão a mesma alegria. A ficção tem feitura mais trabalhosa. Se pudesse escolher, seria só poesia.

Quais são os autores decisivos para sua formação literária?
Dos autores do meu curso primário, cito alguns: Olavo Bilac, Cecília Meireles, Martins Fontes, Castro Alves têm minha perene gratidão. Adulta, conheci nossos grandes: Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e outros maravilhosos autores, incluindo muitos estrangeiros, foram e são importantes, porque me fazem ver o que é literatura, a diferença crucial entre versos bonitos e um poema verdadeiro.

Em que medida eles foram fundamentais?
Por meio das obras deles eu vi espelhada a minha humanidade. Eu falei: “Sou um igual”. Eu me vi reconhecida, me vi refletida, e eles confirmaram a minha humanidade. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, após a morte de meu pai, começo a escrever incessantemente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isso, é a minha fala. Isso me deu um descanso, me deu alegria.

Nossa publicação é voltada a professores de escolas públicas do Brasil. Conte-nos um pouco de sua longa experiência como professora. Sendo poeta e escritora, como lidava com o trabalho de leitura e escrita de seus alunos?
Não tem segredo. Fui professora antes de publicar meu primeiro livro. Se ofereço bons autores aos alunos e os deixo ler sem o castigo de “tirar a mensagem do autor”, descobrirão a maravilha do universo que um livro pode oferecer. A literatura trata da experiência humana.O leitor se apropria do texto porque o texto se torna dele. Se a escola parar de tratar a literatura como matéria de vestibular e incluí-la no feijão com arroz de sua atividade pedagógica, o resto acontecerá sozinho e melhor: sem esforço. E, melhor ainda, com imensa alegria. Acabei de escrever meu segundo livro infantil: Carmela vai à escola. E coincidentemente lá está a melhor resposta que poderia oferecer à sua pergunta.

Os professores que participam da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro trabalham em sala de aula com a leitura e a escrita de gêneros textuais, entre eles a poesia. Na opinião da senhora, que tipo de postura um professor pode ter na hora de trabalhar poesia com crianças e adolescentes?
A melhor postura é a de mostrar que ele mesmo, professor, ama a leitura, contagiar os alunos através da ficção e da poesia com seu entusiasmo sobre nossa maravilhosa língua portuguesa. Sem isso não tem nem como começar a falar do assunto. Não há congresso pedagógico que dê jeito nessa miséria, professores que se gabam de não gostar de ler. Mas esta entrevista me anima. Há muita gente boa preocupada em melhorar a qualidade da vida e do ensino de nossas crianças. Longa vida aos que levam a sério a tarefa de fazer do nosso país uma nação.

*PRADO, Adélia. A duração de um dia - Editora Record - 2011, pag. 60

*Entrevista concedida a Luiz Henrique Gurgel  da Revista “Na Ponta do Lápis” – uma publicação da Fundação Itaú Social e do MEC – nº 15

*Grifo meu.

domingo, 15 de maio de 2011

Luz Sob a Porta

“A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes...” (Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas”


           Dia 13 p. p. fizemos em nossa escola a reunião de pais do primeiro bimestre de 2011. Momento de refletirmos sobre os muitos desafios que envolvem família-escola-sociedade na aprendizagem (ou não) dos alunos (as). Uma sociedade muito persuasiva... Sendo assim, é preciso que os nossos jovens tenham bastante sabedoria para optar por aquilo que é melhor, verdadeiramente importante, e andar com seus “próprios pés”.
          Deixo esse conto para leitura e reflexão. Nélson, o personagem do conto de Luiz Vilela, vence as tentações frente às insistências e gozações dos colegas... Valoriza também a família...
          Para ilustrar, peço licença aos alunos (as) dos 3ºs de uns anos atrás para publicar a foto do grupo que trabalhou esse conto. Fizemos, na época, um trabalho que consistiu em ler, adaptar o texto para a “linguagem teatral” e apresentar em classe. Foram vários contos, várias apresentações, várias aprendizagens...






Boa leitura e boa reflexão para todos nós.


LUZ SOB A PORTA
LUIZ VILELA

– E sabem o quê o cara fez? Imaginem só: deu a maior cantada! Lá, gente, na porta da minha casa! Não é ousadia demais?
– E você?
– Eu? Dei té-logo e bença pra ele; engraçadinho, quem que ele pensou que eu era?
– Que eu fosse.
– Quem tá de copo vazio aí?
– Vê se baixa um pouco essa eletrola, quer pôr a gente surdo?
– Você começou a me falar aquela hora...
– Kafka? Estou lendo. O processo. Delirando. Kafka deixa a gente angustiada.
– Já passei minha fase de Kafka. Estou lendo agora é Sartre; O muro, já leu? Bárbaro.
– Gosto mais de A náusea.
– Vocês não vão dançar?
– Toninho, põe os Beatles.
– Escuta essa aqui, gente, escuta só essa aqui, é o máximo; conta, Guido, conta aí...
– Vocês não conhecem? A das duas bichas fazendo tricô?...
– Onze e vinte: já vou.
– Você está doido? Agora que a festa começou, agora que está ficando bom; aquelas duas ali que chegaram, viu só que material?... Agora que a coisa está ficando boa, e você vai embora? Pra quê essa pressa?
– Já te falei, é aniversário da minha mãe, preciso ir lá.
– Você vai deixar isso tudo aqui?
– É aniversário dela, não fui lá ainda.
– Você vai amanhã. Será que ela vai morrer se você não for hoje?
– Você não compreende; ela deve estar lá me esperando; eu nunca deixei de ir.
– Você está com algum macete aí fora e não quer contar. Onde já se viu sair de uma festa dessas pra ir na casa da mãe.
– Qual foi o galho aí, gente?
– A mãe do Nélson.
– Quê que houve com sua mãe, Nélson? Ela está doente?
– Ele está dizendo que vai embora; é aniversário dela, ele vai lá. Eu disse pra ele que...
– Embora? De jeito nenhum. Não tem nem uma hora que você chegou aqui.
– Preciso dar uma chegada lá, Maria, é aniversário dela, não fui lá ainda.
– Essa hora? Sua mãe já está dormindo.
– Não está não, eu sei.
– Te garanto. Mais de onze horas. Você vai lá amanhã.
– Vocês não compreendem.
– Complexo de Édipo...
– Não, você não vai embora não. Deixa sua mãe pra depois; que diabo, você está fazendo pouco-caso de minha festa? Vou encher seu copo.
– Não, Maria.
– Deixa de onda, Nélson; enche o copo dela aí, Maria, pode encher.
– Cadê seu copo?
– Não, Maria, já estou indo.
– Poxa, você é casado com sua mãe, ou quê que é?
– Vocês não compreendem.
– Você tem medo de sua te pôr de castigo?
– Tadinho, a mãe dele vai pôr ele de castigo...

Ao sair do táxi, olhou as horas: cinco pra meia-noite.
Havia luz sob a porta, ela estava esperando-o.
– Eu sabia que você vinha.
– A senhora não devia ter-me esperado até essa hora. Mamãe, já é tarde; eu viria amanhã.
– Não estou com sono. E, além disso, eu tinha certeza de que você vinha. Você nunca deixou de vir.
Sentada à mesa, a mãe sorria feliz para ele.
– Veio mais alguém aqui? – ele perguntou.
– Encontrei com a Dulce na porta, ela lembrou e disse que vinha, mas não veio: decerto tornou a esquecer. Pensei também no Rubens; ele sempre vinha, o ano passado mesmo ele veio; mas dessa vez ele também não apareceu, não sei por quê.
– Quer dizer que a senhora passou o dia sozinha?
– Passei, mas não teve importância; eu arranjei uma costurinha para fazer. Pensei que você vinha de tarde e fiquei te esperando; toda hora que eu ouvia passos no corredor, eu pensava que era você; mas depois passou a tarde, e, como você não veio, eu pensei que você tinha deixado pra vir de noite.
– Eu queria vir mais cedo. Se eu tivesse vindo, a senhora não precisaria ficar esse tempo todo me esperando.
– Não estou com sono; gente velha não tem sono.
– A senhora não é velha – beliscou de leve a mão dela, num carinho. – Já falei que a senhora não é velha: a senhora é um broto, viu? Não fale mais que é velha.
A mãe sorriu.
– Comprei umas garrafas de guaraná, para o caso de vir alguém; mas não veio ninguém... Quer tomar uma? Fiz também daqueles biscoitinhos que você gosta...
Ela foi buscar.
Encheu o copo dele.
– E a senhora, não vai tomar?
– À noite não gosto de comer.
– Segunda eu vou trazer um presente pra senhora, hoje de manhã não tive tempo de comprar.
– Incomoda não; eu sei que você não anda bom de dinheiro; eu também não estou precisando de nada. Meu presente é você ter vindo...
– Eu podia ter passado o dia com a senhora.
– Você quase não tem tempo, Nélson.
– À tarde eu tive; eu podia ter vindo.
– Você veio agora, já está bom.
– Se eu tivesse vindo, a senhora não teria passado o dia sozinha.
– Eu arranjei essa costurinha para fazer.
Comeu outro biscoito e tomou um gole de guaraná.
– E o Álvaro? Também não veio?
– O Álvaro? Há tanto tempo que não vejo o Álvaro, tanto tempo que ele não vem aqui... A gente vai ficando velha, os outros vão se afastando...
– A senhora não está velha.
– Estou sim, Nélson; eu sei que é amor de filho, mas eu estou: setenta anos é muita coisa.
– Vovó viveu até os noventa e cinco.
– Eu sei, mas eu não quero viver isso tudo. Depois de certa idade, a gente só dá trabalho aos outros, não quero viver tanto assim.
– Mas eu quero, Mamãe.
– Setenta anos é muito; já basta. A gente começa a se sentir cansada, vai perdendo o gosto pelas coisas. Não quero viver muito tempo.
– Quer sim, Mãe. A senhora tem de querer.
Segurou-lhe o queixo com carinho:
– Tem de querer, viu?
A mãe baixou os olhos: estavam molhados.
– Por que a senhora está chorando?...
– Você demorou tanto, Nélson... Já estava pensando que você não vinha mais...
– Eu nunca deixei de vir, Mamãe.
– Eu sei... Mas você demorou tanto... Você nunca tinha demorado assim... Eu não queria pensar isso, mas você nunca que vinha... Eu te esperava, mas você nunca mais que chegava...
Ela chorava, de cabeça baixa.
– Está bem, Mamãe – disse, pondo a mão no braço dela –; mas agora não chore mais; eu já estou aqui.
– Eu não queria pensar isso... Eu sei que você nunca deixou de vir... Eu não queria pensar isso... mas você estava demorando tanto...
– Está bem; não tem importância. Mas agora não chore mais.

(Tarde da noite. 4. ed. São Paulo, Ática, 1988.)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Redações

“Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim.” (Fernando Pessoa, poeta)

           Olá!
          Assim como fiz no ano passado, apresento hoje algumas redações produzidas pelos alunos e alunas na prova do SAG nesse primeiro bimestre de 2011. Dentre muitas redações boas, escolhi três, que, embora pautada por uma linha de pensamento bastante parecida, diferenciaram das demais, abordaram o tema de forma mais ampla, mais crítica.  Então a dica hoje é diferenciar, pensar e refletir mais antes de produzir o seu texto; ser original.
          Imagine centenas ou milhares de pessoas fazendo uma redação sobre um único tema proposto. O desafio é: como produzir um texto diferenciado dos demais, que se destaque por ser mais qualificado? Como alcançar a originalidade? Fugir das frases feitas, de clichês, expressões que, de tão desgastadas já caíram no “lugar-comum”? Isso ocorre quando não fazemos esforço de reflexão, quando as ideias não tiveram origem em nossa mente.
          Agradeço a Letícia (foto 1), a Glaucilane (foto 2) e ao Fernando (foto 3) por permitirem que suas redações sejam publicadas aqui no Mire e Veja Travessia.


TEMA: Desastres ambientais – interferência humana ou fenômeno natural?



Texto 1: Pequenas atitudes podem gerar solução

          É incrível como o mundo está tomando um caminho totalmente desconhecido. Jornais e revistas alertam diariamente que o mundo pede socorro. Poluição, lixo, devastação e ambição tomaram conta de praias, parques, florestas, rios, lagos...
            Será que isso é fenômeno natural? Existem sim os fenômenos naturais, as chuvas, algumas nevadas, tempestades e até vulcão que entra em erupção. Mas sempre que a ambição, a vontade de ganhar e humilhar “sobe à cabeça” do ser humano o fim é o mesmo: Tragédia. O aquecimento global é resultado do que a poluição faz. A guerra é resultado de egoísmo. São muitas atitudes impensadas que causam problemas sem solução.
            Alguns religiosos dizem: Deus está castigando. Alguns cientistas afirmam: É desastre natural. Mas a lógica é: falta responsabilidade, pois precisamos da natureza para viver.
           Podemos entregar tudo nas mãos de Deus? Temos que ter fé, sim, mas também devemos tomar atitudes para mudar o que está acontecendo. Muitas vezes são pequenas atitudes, mas que geram solução. Somos nós que vivemos no mundo e nós que devemos cuidar dele. Quando todos os rios secarem, todos os animais morrerem e a última árvore for derrubada, as pessoas vão, finalmente, entender que dinheiro não se come!
Letícia Salim da Silva nº 26 – 2º B


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Texto 2: Desastre e consumismo

           A interferência humana vem acabando com o nosso planeta de forma brutal.
          Até quando o nosso planeta vai aguentar? Cada dia vem aumentando as empresas, as usinas, as tecnologias. O ser humano vem inovando cada vez mais, tirando tudo do meio ambiente e sem saber colocar de volta. Muitas riquezas naturais estão chegando ao fim. Daqui a alguns anos nós não vamos ter nem água para beber, nem alimentos para comer. Os mares estão mudando, as florestas sendo substituídas por prédios, empresas; as montanhas estão virando “torre” pelas mãos dos seres humanos.
          Cada dia vem aumentando os desastres, morrendo pessoas e acabando partes das cidades. Os terremotos, enchentes, erupções, tsunami são fenômenos naturais. Mas e o aumento no buraco da camada de ozônio? E as enchentes?
          Consumimos o que não precisamos e não pensamos na natureza. Os lixões estão tomando conta das cidades. Isso prova que estamos “fechando os olhos” para a natureza e “abrindo os olhos” para a ganância de querer mais, conseguir o que não estar ao nosso alcance, mesmo que para isso coloquemos em risco a vida de milhares de seres vivos que não tem nada a ver.
          O meio ambiente está sendo destruído pelas nossas próprias mãos, mas com tantos desastres ainda fingimos que não vemos tudo isso acontecer e a natureza está se revoltando contra nós. Ainda há tempo de proteger a natureza, diminuindo o consumismo exagerado e devolvendo à natureza aquilo que dela se tirou.
Glaucilane Oliveira nº 16 – 1º C

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Texto 3: Desastres ambientais e a vida

          O ser humano é capaz de coisas magníficas tanto para o bem quanto para o mal. Vamos focar nas coisas extraordinariamente ruins que aconteceram por culpa das pessoas e que destruíram o meio ambiente de forma avassaladora; acidentes ou tragédias planejadas que castraram muitas vidas de diversas espécies (inclusive humana).
           Há quem diga que a terra está no seu limite para ter condições de poder recuperar frente a tantas agressões causadas pelo ser humano; é como se estivesse na UTI. Um pouquinho de desatenção dos médicos e enfermeiras, que neste caso é a população humana, e começa a falência do “organismo” como um todo. De fato o momento é crítico, mas precisamos pensar que o ambiente não tem fronteira, não tem partido, não tem raça, cor, ideologia ou economia. Ele pertence a todos e todos pertencem a ele. Não há desenvolvimento de sociedade, saúde ou até mesmo a existência humana sem a natureza. No entanto é a destruição da natureza, o que temos visto diariamente nos noticiários mundiais e regionais.
          Há tempos o Brasil presenciou uma grande agressão ao meio ambiente provocado pelo vazamento de óleo no Rio Iguaçu. Agora, com a chuva, outros desastres atingiram muitas pessoas e destruíram moradias no Rio de Janeiro. Precisamos acabar com esses desastres ambientais.

Fernando F. de Chaves nº 12 – 1º C